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O Mais Justo dos Justos


O mais justo dos justos era um homem triste e solitário. Não porque os outros o haviam abandonado. A verdade é que ele fazia questão de viver só. Muitos se perguntavam a razão da sua solidão. E muitas eram as respostas que se davam. Todas meras especulações. É. Havia muita suposição sobre a vida do mais justo dos justos.


Certo dia, o homem triste e solitário, em seu caminho rumo ao lago, encontrou um outro homem. Um encontro totalmente ao acaso. Esse outro homem, pelo contrário, era feliz e nada solitário. Ele vivia rodeado por muitas pessoas. De fato, possuía muitos amigos. E tinha o mais belo dos sorrisos.


O homem justo tentou, naturalmente, evitar o outro homem. Trocou de caminho, deu meia-volta. Mas o homem feliz foi tão insistente que, por fim, conseguiu começar uma conversa com o justo. Sim, o homem feliz estava muito curioso. Ele queria desvendar a razão pela qual o homem justo vivia longe de todos. Mas se controlou. Falou sobre como o vilarejo era verde, sobre como a água era límpida tal qual um espelho, sobre como os pássaros voavam livres no céu. Durante a conversa, o homem justo o observou com cuidado, surpreso com o fato de o homem feliz não lhe perguntar o motivo da sua solidão.


O homem justo, no dia seguinte, foi novamente ao lago e, espantosamente, animou-se em ver o outro homem. Nesse dia, o homem feliz levou o homem triste para conhecer um bosque. O bosque sempre havia estado ali, mas o homem justo não o conhecia, em razão do seu isolamento. O homem feliz contou-lhe muitas histórias e, em um momento inusitado, o homem triste esboçou um sorriso. Com isso, o homem feliz ficou ainda mais contente (que belo parecia ser também aquele sorriso!). Aparentemente, estava prestes a conquistar mais um amigo.


Quero que saiba que eu sou o mais justo dos justos, disse o homem triste, como se contasse um segredo. Disso já sei, disse o homem feliz. O que resta saber...


O homem feliz não teve coragem de terminar a pergunta. E eles voltaram para suas casas.


Algum tempo passou. E, aos poucos, os dois homens tornaram-se amigos. Tão amigos e confidentes que, certo dia, o homem triste resolveu presentear o outro homem com o seu maior tesouro: uma pequena esmeralda. O homem feliz ficou ainda mais contente. Sorriu tão grande que deixou o homem triste envergonhado.


Pouco tempo depois, em uma de suas caminhadas noturnas rumo ao lago, o mais justo dos justos escutou um ruído inesperado. Duas pessoas conversavam, na penumbra, em tom de segredo. O homem triste aproximou-se sorrateiramente e, de súbito, sentiu-se como que congelado. Era o homem feliz que conversava com uma mulher feliz. O que faziam os dois ali?


O homem triste decidiu ir embora de imediato, pois não seria justo ouvir a conversa alheia, ainda mais do seu melhor amigo. Mas quando se virava, viu que o homem feliz entregava algo para a mulher. E não era aquela a sua esmeralda?


Como fui tolo, pensou o mais justo dos justos, enquanto lágrimas começavam a escorrer dos seus olhos. E com a tristeza, sentiu junto muita raiva. Como pôde ser tão tolo, a ponto de confiar em um homem feliz?


Na noite seguinte, assim que chegaram ao topo da montanha para observar a lua, o homem feliz criou coragem para fazer a derradeira pergunta. Por que você vive isolado de todos os outros?


O homem triste ainda estava com muita raiva. Não lhe saía da cabeça a traição que presenciara. Como lidar, então, com aquela pergunta? Quis sair correndo e esconder-se em sua casa. Como pôde ser tão tolo, a ponto de confiar no homem feliz?


Mas o homem feliz não o deixou partir e o abraçou com força. O homem triste tentou se desvencilhar a todo custo. E, sem conseguir, os dois acabaram se enfrentando. Assim, sem avisar, o abraço converteu-se em luta. Em determinado momento, com muita raiva e movido por seu senso de justiça, o homem triste empurrou o homem feliz, que tropeçou e caiu ladeira abaixo. Foi então que, enquanto o homem feliz desaparecia na escuridão sem fim, o mais justo dos justos se sentiu finalmente justiçado. E, satisfeito, desceu calmamente a montanha.


Quando se aproximava da sua casa, o homem triste avistou a mulher feliz deixando algo à sua porta. Ele correu, mas, ao alcançar a sua velha habitação, a mulher já havia desaparecido em meio às árvores. O homem triste, então, pegou a pequena caixa deixada na penumbra. E dentro dela, para sua surpresa, encontrou um colar tecido cuidadosamente à mão, tendo, como pingente, a sua esmeralda.


O mais justo dos justos voltou correndo para a montanha, em busca do homem feliz. Enquanto clamava ensandecido pelo amigo, as lágrimas formavam pequenas cachoeirinhas em sua face. O homem triste procurou durante horas pelo homem feliz, mas a verdade é que jamais o reencontrou.


Eu não sou uma pessoa boa, gritou, desesperado, o mais justo dos justos. Eu não sou uma pessoa boa! Pois quando acreditava estar fazendo justiça, o homem triste era capaz de fazer qualquer coisa. Qualquer coisa, boa ou má, pouco importava, desde que se fizesse justiça. Mas como se podia ter certeza de que, ao se buscar fazer justiça, não se cometia a maior das injustiças?


O vilarejo estava escuro. O lago, tumultuado. E não havia pássaros no céu. Começou, então, a chover. Não era justo que o homem triste estivesse em meio aos demais. E foi assim que o mais justo dos justos voltou ao seu isolamento, de onde nunca mais saiu.



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